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Roque Gameiro

A Baixa vista do Jardim de S. Pedro de Alcântara

“Olha como a cidade está inundada de sol! Dêmos meio dúzia de passos, tomemos a alameda, e sentemo-nos, como dois «reformados» do realismo; admiremos este panorama, que abrange uma parte nobre de Lisboa, desde os altos de Campolide até para lá da Sé e S. Vicente.

É curioso observar daqui as «três idades» principais da «urbe». Lá está o Castelo onde, (…) podes visionar a muralha goda ou moura – a cerca velha; as suas abas em casario atropelado decaem sobre o velho Rossio; lá está a linha da segunda circunvalação fortificada de D. Fernando que, da vertente da Mouraria subia a Santa Ana, para tornear Santo Antão (Anunciada), subir pela Calçada do Duque de hoje, e entroncar em S. Roque. E aí tens ao longe as colinas de Lisboa: Graça, S. Gens, a Penha; depois os altos de Santa Ana, bairros novos a norte de Andaluz, a Avenida na vertente do antigo Valverde.

A sul, salientam-se as torres morenas da Sé, as torres brancas de S. Vicente; ali uma igreja ergue-se de entre o casario confuso, adiante um prédio antigo, ainda cor de rosa, ostenta o seu vulto imponente numa amálgama de casario vizinho e modesto. Ao fundo, ainda a Sul, a nesga do Tejo e, em planos distanciados, os montes da outra banda. O sol propício envolve tudo isto de uma luz doirada, e a velha Alcáçova, na configuração de uma penha verde, parece a múmia de uma sentinela, engrinaldada pelas idades.

À tardinha este sítio envolve-se de uma beleza contemplativa que não consente que morra a poesia nos olhos lisboetas. E – porque o crepúsculo ainda vem longe – escuta de minha boca este trecho modelar de Raúl Proença, e não conheço quadro pictural mais perfeito arrancado de um miradouro de Lisboa:

            «Há ali uma janelinha que de súbito arde em luz doirada, como se a iluminassem de repente. Acende-se outra ainda; e dentro em pouco todas as vidraças se incendeiam. Lisboa inteira refulge em labareda, e a cor trasmuda-se, e as janelas, na pompa ensanguentada do poente, são já de fogo e púrpura… Depois, uma após outra, as vidraças apagam-se, como se um sopro as fosse percorrendo. Mas ainda lá em cima uma janelinha persiste em arder solitária, como faúlha no rescaldo do fogo chamejante que por momentos consumiu Lisboa, fazendo dela um quadro de apoteose.»” – Peregrinações em Lisboa, Livro V, 1938, p. 76.

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