Detalhe

À Volta da Mesa

À volta duma ementa da colecção de Matos Sequeira: Almoço em homenagem a André Brun

A ementa do almoço de despedida oferecido a André Brun em 1917, no Casino do Dafundo, constitui não apenas um testemunho da amizade e reconhecimento dos seus pares do meio teatral e jornalístico, mas também um valioso documento que cruza a experiência da guerra com a cultura literária e humorística da época, refletindo a importância de Brun na cena cultural portuguesa do início do século XX.

Os espólios que pertencem ao acervo do Gabinete de Estudos Olisiponenses, e que têm a sua origem no trabalho e vida de vários olisipógrafos, reúnem uma variedade de documentos que nos surpreendem: livros de contas, notas de estudo, publicidade, recortes de jornais, taludas da lotaria, “monos” de impressão de obras, convites e ementas, entre tantos outros.

As ementas, efémeros documentos, que displicentemente consultamos, escolhemos e pomos de lado, guardando talvez apenas as dos eventos que nos digam algo (os casamentos e baptizados de família e amigos, por exemplo) foram objecto de colecção de Vieira da Silva (em menor número) e de Gustavo de Matos Sequeira (que reuniu quase duas centenas) de refeições em que participaram. Através do seu estudo, ganham vida detalhes das relações sociais de épocas passadas, hábitos sociais, modas culinárias. Há ementas para todos os gostos: as formais, de banquetes oficiais, as correntes de restaurante, as manuscritas com humor para um almoço entre amigos; em francês como se usava, mas também em português, italiano e espanhol; impressas, dactilografadas ou manuscritas; simples ou ilustradas. Na colecção de Matos Sequeira algumas (poucas) estão acompanhadas do respectivo convite para a ocasião, pelo cartão com o lugar marcado e até por um elegante marcador de lugar. 

Escolhemos, do espólio de Sequeira, de entre tantas que podíamos ter escolhido, a ementa do almoço em homenagem a André Brun, militar e escritor humorista (1881 – 1926) que em 1917 quando parte para França integrado no Corpo Expedicionário Português era já capitão (regressará no ano seguinte e será promovido a Major). Da sua experiência militar e de guerra, para além da colaboração na revista Portugal na Guerra, escreverá A Malta das Trincheiras

Mas já em 1917 André Brun é um dos mais conhecidos autores teatrais portugueses, tendo apresentado a público a sua primeira peça em 1901. Daí por diante, colabora em diversas publicações periódicas, redige crónicas, livros, humorísticas peças e revistas, rápidas e alegres, granjeando a admiração e estima do público que acorre aos teatros a assistir a mais um êxito de Brun. Entre as mais conhecidas A Vizinha do Lado (1913, passada a filme nos anos 40 do século XX), A Maluquinha de Arroios (1916); das suas novelas, destaque para Sem Pés nem Cabeça (1913), Praxedes, mulher e Filhos: cadastro d’uma família lisboeta (1916) e Outra vez Praxedes (1917); das revistas, O Paiz do Vinho (1909). 

Assim, quando Brun anuncia a sua partida para a frente de guerra em França, os amigos do mundo teatral e jornalístico oferecem-lhe este almoço, que se realizou no Casino do Dafundo, instalado no Palácio Castelo Melhor (edificado no primeiro quartel do século XIX e demolido na década de 50 do século XX), fronteiro ao Aquário Vasco da Gama. 

Com um texto assinado por Carlos Simões (1878-1939), e uma caricatura de Francisco Valença (1882 – 1963), os quais tinham fundado com Brun a revista O Chinelo em 1900, é dado o tom para o almoço: Brun é representado como um corajoso combatente cuja espada trespassa o boche inimigo em terras francesas representadas pelo galo e a garrafa de champagne, não fossem estes amigos, também bon vivants. O texto, pleno de trocadilhos, traça um retrato das qualidades do homenageado e augura o seu regresso.

No canto inferior esquerdo do menu um casal. São D. Genoveva e seu marido José da Silva Praxedes, que, com A Capital a sair do bolso e um lenço monogramado na mão se despedem em lágrimas do seu criador.

Acompanhando a sua própria caricatura André Brun assinou-a com as sentidas e íntimas palavras “Ao Gustavo, com o coração” . 

No interior da ementa a justificação para o encontro, e à direita o menú propriamente dito. Consta dum prato de peixe (linguados fritos com salada), seguido de vários tipos de pratos de carne como era ainda uso à época: frango à valenciana (estufado com molho), um pastelão de presunto, filetes de carne com batatas fritas e um pudim a terminar. 

Não é um menú de grande riqueza culinária mas os tempos eram já de guerra e a escassez de alimentos poderá ter determinado a ausência dum grande assado, por exemplo, ou a falta de variedades de sobremesa. Mas a graça da ementa reside nos apodos que os seus autores (desconhecidos, mas muito provavelmente os já referidos Simões e Valença) atribuem aos pratos, todos eles títulos das obras de André Brun. 

Finalmente no verso da ementa Matos Sequeira, também ele jornalista, fez as suas anotações referindo-se a quem discursou no almoço. No dia seguinte, o jornal A Capital publicava a notícia do almoço e a carta que André Brun enviara e na qual afirmava: “Parto levando o coração confortado com tantas amizades. (...) A todos levo dentro do peito, pois souberam dar-me na hora da partida uma das minhas melhores e mais enternecidas alegrias”.

Ana Homem de Melo