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Roque Gameiro

Arco de Santo André (demolido). Passo da Procissão dos Passos da Graça e arco de Santo André

“Estamos agora no local onde foi o Arco de Santo André, demolido em 1915, para dar passagem aos carros elétricos, ou melhor: para a montagem dos fios aéreos. Era aqui a Porta de Santo André da «Cerca Nova» de D. Fernando; as exigências do trânsito converteram a Porta, certamente de reduzidas linhas, em Arco, e este acabou por se ir embora também. Sobre o arco corria um passadiço que ligava o edifício, hoje de esquina, ao Palácio dos Condes da Figueira, esse grande prédio que aí estás vendo, na esquina oposta à calçada da Graça, com seu portal nobre de estilo barroco seiscentista, a sua rijeza de aspeto, uma indiscutível austeridade arquitetónica exterior.

[…] Adiante. Este portal sacro [visível na estampa 70], encostado ao cunhal do desaparecido Arco, de um vermelho de capa de confraria, foi o de um dos passos da procissão dos Passos da Graça, que endoidecia Lisboa da Mouraria ao Rossio e S. Roque. Esta procissão, que acabou pela República, e datava da Quaresma de 1587, teve origem numa lenda que…

Mas escuta em um minuto só, a lenda.

Um peregrino foi certo dia bater à Casa dos Padres de S. Roque, a pedir pousada. Não o receberam. Foi depois bater ao Convento da Graça; ali foi acolhido. Entrou, mas quando foram por ele – sumira-se. Em seu lugar estava uma imagem do Santo Cristo. Houve uma demanda para se saber a qual das casas religiosas pertencia a imagem; ganharam os gracianos contra os jesuítas. Mas estes ficaram com o direito de possuir a imagem «um dia só», durante a roda do ano. Se demorasse mais um dia em S. Roque – a Graça perdia a posse. E assim em certa quinta-feira da Quaresma, à tarde, o Senhor dos Passos da Graça ia para S. Roque, e regressava na tarde de sexta-feira.

Metia tropa e as Majestades. Iam devotos descalços – pés em sangue – sob o andor, a cumprir promessas. Esta inocência piedosa acabou, por ordem real, em 1879; as promessas, porém, continuaram, e com elas a procissão lisboeta, uma das mais populares do século passado

Dileto: deixemos isto; se nos perdermos em divagações não chegamos ao fim” - Peregrinações em Lisboa, Livro III, 1938, p. 12-14.

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