Detalhe
Beco dos Cortumes

“Pois desviamo-nos agora uns trinta passos para a direita – lado poente – e tomemos à Travessa do Terreiro do Trigo, que se continua do Largo de S. Miguel para o lado do rio.
Nesta Travessa se abre, à esquerda, descendo, uma das curiosidades autênticas da Alfama: o Beco dos Cortumes. Aí o temos, Dileto. Eis-nos em plena Alfama medieval.
Como é possível isto, através das desfigurações do tempo e da fortuna, o pobre urbanismo bairrista? Como encontramos hoje, e já tão perto da larga Rua do Terreiro do Trigo, este espécime raro em toda a Lisboa, que mais parece cousa de estampa antiga […] Pois está aqui, pitoresco e sombrio, até mais não poder ser. É um enfiamento curto, sem saída, morrendo nas traseiras dos prédios do Chafariz de Dentro, para onde em tempos teria passagem. Não é do mais belo, mas é do mais «repassado» de toda a Alfama: chamemos-lhe viela, alfurja, beco ou betesga, mas não chega a ser nada disso, pois nem tem quási sinal de gente. Entremos. Arcos curtos, passadiços ligando prédios esquisitos que já lhe não pertencem, janelas de madeira, baixos de armazéns gradeados de frestas, como na Rua das Canastras e do Almargem à Ribeira Velha – um misto de reentrância exterior de cárcere e de recanto de burgo seiscentista – este Beco dos Cortumes é uma pequena água-forte.” – Peregrinações em Lisboa, Livro X, 1939, p. 65.


