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Roque Gameiro

Entrada do Palácio dos Paulistas (Antigo Correio Geral). Palácio Marim-Olhão: átrio e escadaria

“Vejamos agora, Dileto, o último dos edifícios palacianos que ficam na nossa passagem pelo Calhariz: é este grande casarão […], já no começo da Calçada do Combro, o mais miserável de todos, mas também o mais fiel do bairro.

Este decrépito palácio, hoje pouco mais do que pardieiro imundo, é ainda rico de documentação arquitetónica. Solar nobre dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão – um dos quais foi monteiro-mor da Corte – aqui se instalou o Correio Geral, quando estes serviços públicos passaram para o Estado […]. Aqui estiveram instaladas uma conservatória do Registo Civil, no começo da República, e, depois, a Confederação Geral do Trabalho, o jornal «A Batalha», as «Juventudes Monárquicas», e em velhos tempos, com entrada pela travessa das Mercês, a famosa «Revolução de Setembro», do grande jornalista Rodrigues Sampaio, além de outros jornais, em épocas mais recentes (…). O casarão palaciano é hoje moradia de famílias pobres, e aqui tem sua sede um sindicato da Companhia Carris. Pertence à firma Melo, Castelo Branco, Limitada, que, segundo creio, pensa em nele fazer obras – que bem merece o casarão – e torná-lo uma casa decente.

Entremos uns momentos: o grande átrio é nobre, de um nobre arruinado como depois de um abalo de terra. Adivinham-se as arcadas entaipadas, mas bem desenhadas na volta inteira. E contempla este arco do portal de entrada, largo, vistoso, assente sobre duas belas colunas de maneira italiana. As portas de salas, nos dois únicos lanços de escadaria, são de lavor arquitetónico, sobrepujadas de um óculo e de um leão em cimalha, e todas em cantaria; os interiores são lúgubres, menos do que casebres […].

Acabam assim os palácios, ao mesmo tempo que, pela força do destino e pela natural evolução das sociedades, se extinguem os títulos de nobreza, que não a fidalguia, pois esta, apesar da dissolução de costumes, ainda logra manter-se em muitas famílias e em indivíduos, já pelo aprumo, já pelo carácter. – Peregrinações em Lisboa, Livro V, 1938, pp. 27-28.

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