Lisboa na viragem do século XX. Entre Roque Gameiro e Norberto de Araújo
“Não esquecerei jamais a impressão de sumptuosidade e de admiração que senti quando, aí por […] 1874, vindo da minha humilde aldeia, entrei em Lisboa […], caracterizadamente pombalina, apesar do seu fraco movimento e da monótona harmonia das suas construções, impressionaram o meu espírito de provinciano ingénuo […], como a última palavra do urbanismo estonteante das capitais.” – Roque Gameiro,in “Explicação”, Lisboa Velha, 1925
Completados 100 anos desde a publicação de “Lisboa Velha” do mestre Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), o Gabinete de Estudos Olisiponenses propõe olhar a cidade de Lisboa através de um percurso temático, que coloca em diálogo a obra artística de Roque Gameiro e a obra literária do jornalista e olisipógrafo Norberto de Araújo (1889-1952), como forma de perscrutar a cidade de Lisboa nas suas diferentes camadas históricas, num olhar centrado na matriz urbana e arquitetónica mais antiga, popular e pitoresca.
Do conjunto de 100 estampas compiladas em Lisboa Velha foram selecionados 40 pontos referenciais, acrescentando-se reproduções fotográficas do Arquivo Municipal de Lisboa, assim como fotografias atuais dos mesmos locais, que reconstituem o olhar do artista na nossa contemporaneidade. Complementamos o discurso expositivo com excertos das Peregrinações em Lisboa (1938-1939), redigidas num tipo de jornalismo literário, coloquial e bem informado, onde somos levados por vários périplos pela cidade, orientados num sentido bairrista, subindo cada rua, espreitando cada travessa, atravessando cada largo, visualizando cada edifício emblemático (uns mais eruditos, outros mais vernaculares), cada detalhe digno de referência, sejam aspetos estéticos, sejam apontamentos históricos.
Júlio de Castilho, na sua obra Ribeira de Lisboa (1879), num entendimento menos abonatório de uma «nova Lisboa» rendida às exigências da industrialização, massificação e circulação do último quartel do século XIX, exaltava o fulgor intacto da cidade velha, anti funcional, mas, por isso mesmo surpreendente e castiça. Esta conceção da cidade conquistou discípulos, como Norberto de Araújo, e contribuiu para a consciência do valor patrimonial da Lisboa velha, representado pelo olhar de Roque Gameiro. Através da imagem, mais do que o discurso, Roque Gameiro integra-se num conjunto de autores que começam a olhar para a cidade enquanto monumento, em que o valor histórico está no próprio desenho da cidade e no conjunto urbano e arquitetónico.
A obra de Roque Gameiro, como toda a arte, atua como testemunho visual representativo de uma determinada época, cultura e espaço geográfico: neste caso a Lisboa na viragem do século XX, a cidade que porventura mais ficou no imaginário comum. Elegeu a cidade velha em detrimento da nova urbe que se desenvolvia, com claro destaque para os bairros de Alfama e Mouraria, e suas imediações. Das suas representações ressaltam os aspetos dos recantos mais pitorescos e típicos da cidade, que corriam maior risco de desaparecer. Interessava-lhe sobretudo os bairros populares, das ruelas tortuosas, dos becos, das escadinhas, dos arcos e dos chafarizes, com os seus pobres, varinas, fadistas e crianças, os aguadeiros que vendiam água pelas ruas, os saloios a vender fruta, mulheres à janela…, cenas do quotidiano inseridas num cenário urbano antigo, singular e pitoresco. Alguns apontamentos de arquitetura mais erudita, como portais, torres de igreja, edifícios emblemáticos como a Casa dos Bicos, complementam o olhar do artista. Tal como Roque Gameiro, Norberto de Araújo, anos antes da publicação das suas Peregrinações, concedeu protagonismo aos antigos bairros populares da cidade, palcos da ação dos seus romances mais conhecidos: Novela do amor humilde, de 1927 (em Alfama), e Fado da Mouraria de 1931. Com um “feitio de contemplador do povo desvairado e bom”, como o próprio se define, Norberto tinha consciência de que passava a gerações futuras o seu testemunho e memórias da cidade que experienciou e estavam em risco de desaparecer. Considerava as suas Peregrinações “uma memória, cujos arquitetos e escultores foram todos. Apenas o «risco» é meu” (Diário de Lisboa, 2 de junho de 1938, Suplemento literário, p. 3).
É a vontade de peregrinar por Lisboa, tão bem exercitada por Norberto de Araújo, e tão bem representada por Roque Gameiro, que nos leva a conhecer melhor estes palimpsestos urbanos, ecos de memória da cidade que é de todos nós. Demos, pois, o braço ao autor destas Peregrinações e comecemos a calcorrear Lisboa.
Patente ao público a partir do dia 27 de março no jardim do Palácio do Beau Séjour.
40 locais da Lisboa de Roque Gameiro e Norberto de Araújo
1. Casa dos Bicos – Rua dos Bacalhoeiros, 10
2. Arco de Jesus (Alfama)
3. Travessa de São João da Praça, 17
4. Rua da Judiaria, 10